Razões práticas – resumo

Pessoal, vou colocar aqui o resumo que fiz para a discussão sobre Bourdieu. Quem quiser complementar com trechos, citações e com as questões discutidas, fique à vontade!

BOURDIEU, P. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996.

Bourdieu procura traçar uma teoria da ação focada nas dinâmicas e nos mecanismos das práticas dos sujeitos, os quais chama frequentemente de agentes sociais. Bourdieu é importante, portanto para pensar a questão da agência, suas motivações e mecanismos.

Critica a visão excessivamente teleológica e racional da ação – projeto, finalismo, estratégia, intencionalidade e utilitarismo. Por outro lado, condena também a visão estrutural-funcionalista, que anula os sujeitos em favor do funcionamento de uma estrutura mais ou menos transcendental.

Tem como objeto de análise sociedades complexas ocidentais, que chama de sociedades diferenciadas, embora tenha pesquisado também sociedades pré-capitalistas, como a sociedade cabila, na Argélia. Sua noção de sociedade diferenciada traz à lembrança os processos de diferenciação em biologia e, como estes, não está dissociada de uma orientação evolucionista.

Capital

A ideia que fundamenta sua teoria da ação é a de diferentes tipos de capital, sua distribuição na sociedade e sua percepção pelos agentes sociais: além do capital econômico, já tão estudado e enfatizado pelo materialismo histórico, destaca o capital cultural, político, religioso etc.

O capital simbólico entra, aqui, como um metacapital, pois trata-se da percepção de cada tipo de capital pelos agentes, que lhe atribuem valor. Esta percepção e valoração dos capitais constitui o capital simbólico, que está na base não só da constituição do Estado, mas também da instauração e manutenção de relações de dominação.

Espaço social

Os sujeitos ocupam diferentes espaços sociais, de acordo com a distribuição dos diferentes tipos de capital na sociedade. Bourdieu exemplifica com um quadro da distribuição do capital cultural X capital econômico. O espaço social determina diferentes espaços de tomada de posição, e diferentes disposições.

O espaço é relacional: “(…) conjunto de posições distintas e coexistentes, exteriores umas às outras por sua exterioridade mútua e por relações de proximidade, vizinhança ou de distanciamento e, também, por relações de ordem, como acima, abaixo e entre”. (p. 18)

“De maneira geral, o espaço de posições sociais se retraduz em um espaço de tomadas de posição pela intermediação do espaço de disposições (ou do habitus); ou, em outros termos, ao sistema de separações diferenciais (…) A cada classe de posições corresponde uma classe de habitus” (p. 21)

O campo

Os campos são microcosmos, universos sociais que emergem na diferenciação da sociedade, com dinâmicas e regras de funcionamento próprias e relativa autonomia.

Campo político, campo jurídico, campo burocrático, campo artístico, campo escolástico, etc.

O habitus

O habitus refere-se às disposições e estruturas cognitivas profundamente enraizadas no sujeito, que orientam sua ação de acordo. Ele depende da posição do sujeito no espaço social e nos campos sociais, e se constitui na consonância entre a estrutura estruturante (estrutura objetiva, exterior ao sujeito e imanente à sua realidade relacional) e a estrutura estruturada (subjetiva, cognitiva)

“Uma das funções na noção de habitus é a de dar conta da unidade de estilo que vincula  as práticas e os bens de um agente singular ou de uma classe de agentes”. (p. 21)

“Os habitus são diferenciados; mas também são diferenciadores. Distintos, distinguidos, eles também são operadores de distinção”. (p. 22) Eles são princípios de visão e de divisão.

O habitus diz respeito mais ao corpo e ao inconsciente do que à mente e à consciência. Bourdieu critica aquilo que ele denomina de “filosofias da consciência” como fundamento da ação social.

“O habitus preenche uma função que, em uma outra filosofia, confiamos à consciência transcendental: é um corpo socializado, um corpo estruturado, um corpo que incorporou as estruturas imanentes de um mundo ou de um setor particular desse mundo , de um campo, e que estrutura tanto a percepção desse mundo quanto a ação desse mundo”. (p. 144)

A orquestração dos habitus forma a coesão dos grupos e dos campos.

O Estado, principalmente por meio da escola, é responsável pela imposição de estruturas cognitivas e pela conformação dos habitus coletivos.

A gênese do Estado

Simultaneamente um processo de subjetivação e de acumulação de capital simbólico (monopólio das nomeações e da distribuição dos privilégios)

A questão do interesse

Os campos como jogos sociais e a illusio: consonância entre o habitus e o campo

A illusio, aqui, significa estar envolvido pelo jogo, saber que ele vale a pena. Apenas aqueles que compartilham as estruturas cognitivas e os valores de um determinado campo podem identificar por que o jogo vale a pena.

Bordieu desfaz o binômio interesse/desinteresse a partir da paixão: uma vez que o ato desinteressado é simbolicamente recompensado e valorizado pelo campo, o agente não o faz por interesse consciente, mas sim o faz como se por paixão – como se não houvesse outra escolha.

A economia dos bens simbólicos

Desmonta a primazia do capital economico : contra o utilitarismo

Universalização, recompensa do universal e lucros simbólicos: os motores da universalização

A análise do campo escolástico

Descolamento do mundo das práticas: dificuldade das ciências sociais em lidar com as práticas de maneira não purista e não transcendental.

A sociologia

“(..) conhecimento universal das invariantes e das variáveis que a sociologia pode e deve produzir”. (p. 28)

Apesar disso, Bourdieu não enxerga na estrutura algo de transcendental à sociedade. Contra os substancialismos, ele afirma que o real é relacional: as propriedades não são mecanicamente associadas como substanciais ou intrínsecas a outras características (biológicas e culturais, por exemplo), mas dependem da definição das posições sociais dos sujeitos e de suas relações. (p. 18)

 

 

 

 

 

 

 

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