Maffesoli

Sociólogo francês diz que protestos no Brasil vão continuar

O escritor Michel Maffesoli, um dos maiores especialistas do mundo em manifestações, falará sobre o tema na USP

Andrei Netto – O Estado de S.Paulo
26 de outubro de 2013

PARIS – Autor de livros como A Violência Fundadora (1978) e A Violência Totalitária (1979), o sociólogo francês Michel Maffesoli, um dos especialistas mais requisitados para falar dos protestos que se espalharam pelo mundo há três anos, vai analisar o assunto em São Paulo no dia 6 de novembro, em uma conferência na Universidade de São Paulo (USP).

Profissional da  Sorbonne e do Instituto Universitário da França (IUF), ele estudou em suas obras a fascinação que a violência exerce na sociedade, assim como os motivos que levam o Estado a também adotá-la. Uma de suas constatações é de que a violência pode ser simplesmente banal, sem razão, sem bandeiras, sem ideologias – como, segundo ele, acontece agora nos protestos no Brasil.

A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva ao Estado, em Paris.

O senhor vai ao Brasil falar de ativismo na internet. Por que isso o fascina?

O tema do net ativismo é algo que me é caro, sim. Eu posso falar sobre a Europa, não sobre o Brasil, mas de uma maneira geral a política, da forma como foi elaborada no século 19 e funcionou bem no século 20, já não é algo eficaz. Os partidos políticos, os programas de governo, os sindicatos não cristalizam mais a rebelião dos jovens, já não falam para as novas gerações. “Política” significa agir sobre a sociedade. Mas isso se perdeu.

É isso que os jovens perceberam na Espanha, na Grécia, na Turquia, no Brasil?

Sim. Com a ajuda da tecnologia, de uma forma um pouco difusa, vêm nascendo novas formas de mobilizar a energia para agir pela sociedade. É o caso dos indignados em Madri e dos protestos em Atenas. No Brasil, vimos que desde junho acontecem regularmente explosões de mobilização. E essas explosões em São Paulo ou no Rio de Janeiro aconteceram com a ajuda da internet, usando flash mobs, redes sociais, para convidar outros ao ativismo. Esse “net ativismo” é uma manifestação da pós-modernidade.

O que é a faísca dessas manifestações?

Quando não estamos contentes com a situação econômica, política, social, moral, há uma lenta insatisfação que se acumula até um ponto de saturação. Em determinado momento, acontece a faísca, um pretexto, que inflama essa profunda insatisfação. No Brasil foram os tais 20 centavos, algo absolutamente ridículo, mas que foi a gota d’água. Foi a tarifa do ônibus, mas poderia ter sido a greve dos professores ou a construção dos estádios de futebol. Algo detonou a revolta no Brasil, que vai continuar a se manifestar.

O senhor tem um livro que fala sobre a “violência banal e fundadora”. Não é o que está surgindo no Brasil com esses pequenos grupos violentos, como os Black Blocs?

Sim. Eu tenho um leitor no Rio de Janeiro que eu não conheço, mas que me escreve regularmente. Ele tem uns 20 anos, fala mal francês, mas lê meus livros, os de Deleuze e de outros filósofos franceses, e sempre me envia vídeos dessas explosões de violência. O último foi de um grupo de 30 ou 40 jovens, garotos e garotas, que ocupava o Palácio da Guanabara, ou ainda outras dezenas que faziam algo violento na Lapa. É o que eu chamo de violência banal e fundadora, quando há um lado violento, mas outro também festivo. No final da ação violenta, eles simplesmente foram embora, para depois ressurgir em outro ponto. É isso a violência banal. Ela não tem razão, não tem causa. É uma violência emocional. E a gestação disso, hoje, se dá na internet.

Como responder a esse movimento?

Não sei. Estamos na passagem da modernidade para a pós-modernidade. Todas essas explosões são a consequência dessa mudança de civilização. Não sei se o mundo político pode dar uma resposta, qualquer que seja ela. Seria necessário que ele mudasse completamente de paradigma. Há uma distância entre a política e os intelectuais, de um lado, em relação a essa insatisfação. Essa insatisfação é emocional, ela expressa o “saco cheio” das pessoas. O problema do “saco cheio” é que é difícil para um político gerenciar. Ele simplesmente está aí.

É normal que esses jovens não tenham causas precisas?

Às vezes têm causas, mas elas na verdade não passam de pretextos. Eles não estão brigando por mais democracia. É como uma crise de adolescente. A criança em determinado momento não se sente mais bem em seu corpo e em sua mente, porque está virando adolescente. E aí ele explode, fica intratável. É como esses grupos violentos, que não têm uma causa racional. Só não se sentem bem com o que estava aí, e exprimem isso de forma violenta, emocional. O que é curioso é que, pela internet, essa insatisfação brutal se difunde.

É por isso que os partidos não conseguem se apropriar desses movimentos?

Sim. Os partidos políticos continuam a funcionar com as velhas gerações e com aquelas que estão no poder, mas não com os jovens. Os partidos não interessam mais os jovens. Na Europa cada partido tem grupos de jovens, mas não é algo de massa, não tem mais engajamento de toda a sociedade. A forma “partido”, que foi criada pelos alemães no século 19, foi pensada para organizar a energia para mudar ou corrigir a sociedade. Mas essa forma é muito burocrática, muito vertical, piramidal, não funciona mais. Os partidos estão caindo em desuso, estão ficando esclerosados, e então nascem as novas formas de ativismo. A internet demonstra isso.

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