Entrevista com Pierre Lévy

Pierre Lévy comenta os protestos no Brasil: ‘Uma consciência surgiu. Seus frutos virão a longo prazo’

Filósofo francês, uma das maiores autoridades do mundo nos estudos da cibercultura, fala sobre mobilização em redes sociais

por Andre Miranda (O Globo – 26/06/2013)

RIO – A resposta ao pedido de entrevista é direta: “O único jeito é via Twitter”, disse o filósofo francês Pierre Lévy, uma das maiores autoridades do mundo nos estudos da cibercultura. E assim foi feito. Lévy conversou com O GLOBO na tarde de segunda, via Twitter, sobre os protestos que vêm ocorrendo no Brasil nas últimas semanas e que surgiram das redes sociais.

Nos últimos anos, muitos protestos emergiram da internet para as ruas. Como o senhor os compararia com manifestações do passado, como Maio de 1968?

Há uma nova geração de pessoas bem educadas, trabalhadores com conhecimento, usando a internet e que querem suas vozes ouvidas. A identificação com 68 está no fenômeno geracional e na revolução cultural. A diferença é que não são as mesmas ideologias.

Mas qual é a nova ideologia? No Brasil, críticos falam da dificuldade em identificar uma ideologia única nas ruas.

Uma comunicação sem fronteiras, não controlada pela mídia. Uma identidade em rede. Mais inteligência coletiva e transparência. Outro aspecto dessa nova ideologia é o “desenvolvimento humano”: educação, saúde, direitos humanos etc.

E qual seria a solução? Como os governos devem lidar com os protestos?

Lutar com mais força contra a corrupção, ser mais transparente, investir mais em saúde, educação e infraestrutura. Porém, a “solução” não está apenas nas mãos dos governos. Há uma mudança cultural e social “autônoma” em jogo.

No Brasil, um dos problemas é que não há líderes para dialogar. Qual seria a melhor forma de se comunicar com movimentos sem lideranças?

A falta de líderes é um sinal de uma nova maneira de coordenar, em rede. Talvez nós não necessitemos de um líder. Você não deve esperar resultados diretos e imediatos a partir dos protestos. Nem mudanças políticas importantes. O que é importante é uma nova consciência, um choque cultural que terá efeitos a longo prazo na sociedade brasileira.

E as instituições? Elas não são mais necessárias? É possível ter democracia sem instituições?

É claro que precisamos de instituições. A democracia é uma instituição. Mas talvez uma nova Constituição seja uma coisa boa. Porém, sua discussão deve ser ainda mais importante do que o resultado. A revolta brasileira está acima de qualquer evento emocional, social e cultural. É o experimento de uma nova forma de comunicação.

Então, o senhor vê os protestos como o início de um tipo de revolução?

Sim, é claro. Ultrapassou-se uma espécie de limite. Uma consciência surgiu. Mas seus frutos virão a longo prazo.

O que separa a democracia nas comunicações da anarquia? Pode-se desconfiar do que é publicado na mídia, mas o que aparece nas redes sociais é ainda menos confiável.

Você não confia na mídia em geral, você confia em pessoas ou em instituições organizadas. Comunicação autônoma significa que sou eu que decido em quem confiar, e ninguém mais. Eu consigo distinguir a honestidade da manipulação, a opacidade da transparência. Esse é o ponto da nova comunicação na mídia social.

O senhor teme que os governos tentem controlar as redes sociais por causa de protestos como os que ocorrem no Brasil e na Turquia?

Eu não temo nada. É normal que qualquer força social e política tente tirar vantagem da mídia social. Mas é impossível “controlar” a mídia social como se faz com a mídia tradicional. Você só pode “tentar” influenciar tendências de opiniões.

E e o risco de regimes ou ideias totalitaristas ganharem força por conta dos protestos, como já ocorreu no passado na América Latina?

Isso é pouco provável no Brasil, por conta de sua alta taxa de pessoas com educação. A chave é, como sempre, manter a liberdade de expressão, como ela é garantida pela lei. Não é preciso ter essa paranoia com o fascismo
Fonte http://oglobo.globo.com/cultura/pierre-levy-comenta-os-protestos-no-brasil-uma-consciencia-surgiu-seus-frutos-virao-longo-prazo-8809714#ixzz2jPdiUh9j
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um orgasmo democrático

Entrevista | Massimo Di Felice
“O Brasil experimenta um orgasmo democrático”
Marcos Nunes Carreiro
Jornal opção – Edição 1983 de 7 a 13 de julho de 2013
http://www.jornalopcao.com.br/posts/reportagens/o-brasil-experimenta-um-orgasmo-democratico

Muito se fala de como as redes sociais vêm modificando o pensamento social e ampliando a capacidade de reflexão, sobretudo dos jovens. Isso acontece porque as redes têm participação fundamental nas manifestações e protestos que tomaram o Brasil nos últimos dias. Mani­festações essas que já viraram pauta nas escolas e com certeza serão conhecidas das próximas gerações. Mas, afinal, qual é o papel político-social das redes sociais e da internet atualmente?

Há quem diga que o momento atual do Brasil é de orgasmo democrático, uma vez que ver milhares de pessoas saindo às ruas em razão da situação político-econômica do país. E é realmente instigante acompanhar a efervescência da sociedade, onde até aqueles que não possuem ânimo para participar dos movimentos ficam animados com esses fatos. Todavia, há discordância quanto ao termo “orgasmo democrático”. O professor da Faculdade de Comu­nicação da Universidade Federal de Goiás (UFG) Magno Medeiros, por exemplo, diz que orgasmo é um fenômeno fugaz e de satisfação imediata, ao contrário do que vive o Brasil atualmente.

Para ele, o que ocorre, na verdade, é a erupção de uma dor crônica, sedimentada há várias décadas em torno da insatisfação em relação aos direitos de cidadania. “Direitos básicos, como ter um transporte urbano decente, como ter o direito de ser bem tratado na rede pública de saúde, como ter o direito a uma educação de qualidade e de acesso democrático a todos. O Brasil experimentou, nos últimos anos, avanços consideráveis no campo da redução das desigualdades sociais e da minimização dos bolsões de pobreza, mas os setores sociais pobres e miseráveis, que emergiram para a classe C, querem mais do que apenas consumir os bens básicos, como geladeira, fogão, computador, celular, etc. Eles querem ser tratados com dignidade”, diz.

Ideologia social

O autor da frase que titula a matéria é o italiano Massimo Di Felice, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e PHD em sociologia pela Universidade Paris Descartes V, Sorbonne. Di Felice é professor da Escola de Comu­nica­ção e Artes da USP, onde é fundador do Centro de Pesquisa Atopos e coordenador das pesquisas “Redes digitais e sustentabilidade” e “Net-ativismo: ações colaborativas em redes digitais”.

O termo “orgasmo democrático” surgiu quando o professor foi questionado sobre como anteriormente, os motivos que reuniam milhares de pessoas eram ideologias políticas. Hoje, contudo, já não é assim. Dessa forma, seria então possível afirmar que vivemos uma época em que há o processo de criação democrática de uma ideologia social? Segundo Di Felice, a razão política ocidental moderna europeia, positivista e portadora de uma concepção unitária da história criou as democracias nacionais representativas, que se articulavam pelo agenciamento da conflitualidade através dos partidos políticos e dos sindicatos. E a estrutura comunicativa dessas instituições, correspondente aos fluxos comunicativos da mídia analógica – imprensa, TV e jornais – é centralizada, vertical, além de maniqueísta, isto é, divide e organiza o mundo em mocinhos e vilões, direita e esquerda, revolucionários e reacionários, etc.

Contudo, as redes digitais criaram outro tipo de fluxos comunicativos, descentralizados, que permitem o acesso às informações e a participação de todos na construção de significados. “A razão política moderna é fálica e cristã, busca dominar o mundo, rotula pensamentos enquanto os simplifica, necessita de inimigos e promete a salvação. A lógica virtual é plural, se alimenta do presente e não possui ideologia, além de viver o presente ato impulsivo”, analisa.

Ele diz que é normal que sociedade queira identificar e julgar os movimentos, rotulando-os de “fascistas”, pois, segundo ele, a razão ordenadora odeia o novo e o que não compreende. “Porém, julgar os diversos não-movimentos que nasceram pelas redes (espontâneos e não unitários) é como julgar a emoção e a conectividade orgiástica (‘orghia’ em grego significa “sentir com”). A democracia do Brasil está passando da sua dimensão pública televisiva, eleitoral e representativa, para a dimensão digital-conectiva. O país está experimentando um orgasmo democrático. A lógica é, como diria Michel Maffesoli, dionisíaca e não ideológica.”

Segundo Di Felice, do ponto de vista sociopolítico, as arquiteturas informativas digitais e as redes sociais estão trazendo, no mundo inteiro, algumas alterações qualitativas que, podem ser classificadas em dez pontos: 1. A possibilidade técnica de acesso de todos a todas as informações; 2. O debate coletivo em rede sobre a questões de interesse público; 3. O fim do monopólio do controle e do agenciamento das informações por parte dos monopólios econômicos e políticos das empresas de comunicação; 4. O fim dos pontos de vista centrais e das ideologias políticas modernas (seja de esquerda ou direita) que tinham a pretensão de controlar e agenciar a conflitualidade social; 5. O fim dos partidos políticos e da cultura representativa de massa que ordenavam e controlavam a participação dos cidadãos, limitando-a ao voto a cada quatro anos.

A partir do sexto ponto, o professor classifica aquilo que trata da evolução sistêmica: 6. O advento de uma lógica social conectiva que se expressa na capacidade que as redes sociais digitais têm de reunir, em tempo real, uma grande quantidade de setores diversos e heterogêneos da população em torno de temáticas de interesse comum; 7. A passagem de um tipo de imaginário político baseado na representação identitária e dialética (esquerda-direita; progressistas-reacionários, etc.) para uma lógica experiencial, conectiva e tecno-colaborativa, que se articula não mais através das ideologias, mas através da experiência entre indivíduo, informações e territórios; 8. O advento de um novo tipo de gestão pública e de democracia; 9. A transformação  da  relação entre político e cidadão e do papel dos eleitos que passam a ser considerados não mais como representantes do poder absoluto, mas  porta-vozes e meros executores da vontade popular que os vigia a cada decisão; 10. A passagem de um imaginário político baseado em uma esfera pública na qual a participação dos cidadãos era apenas opinativa, para formas de deliberação coletiva e práticas de decisão colaborativas que se articulam autonomamente nas redes. Acompanhe a entrevista:

Os protestos são organizados nas redes, mas nota-se que há líderes surgindo nas ruas. Como o senhor vê isso?
Os movimentos nascem nas redes, atuam em ruas, mas não em ruas comuns. Eles atuam em “ruas conectadas” e reproduzindo em tempo real os acontecimentos das manifestações nas redes. Através da computação móvel debatem e buscam soluções continuamente nas redes, expressando uma original forma de relação tecno-humana e inaugurando o advento de uma dimensão meta-geográfica e atópica (do greco a-topos lugar indescritível, lugar estranho, fora do comum).  Embora o sociólogo espanhol Manuel Castells defenda que os movimentos sociais contemporâneos nascem nas redes e que somente depois, nas ruas, que eles ganham maior visibilidade, não me parece ser esta a sua descrição mais apropriada. Ao contrário: o que está acontecendo em todas as ruas em diversos países do mundo é o advento de uma dimensão imersiva e informativa do conflito, que se exprime numa espacialidade plural, conectiva e informativa. Os manifestantes habitam espaços estendidos, decidem suas estratégias e seus movimentos nas ruas através da interação contínua nas “social networks” e da troca instantânea de informações. Não somente eles se deslocam conectados, mas a manifestação é tal e acontece de fato somente se é postada na rede, tornando-se novamente digital, isto é, informação. Não é mais possível pensar em espaços físicos versus espaços informativos. Os conflitos são informativos. Jogos de trocas entre corpos e circuitos informativos, experimentações do surgimento de uma carne informatizada, que experimenta as suas múltiplas dimensões: a informativa digital e a sangrenta material, golpeada e machucada. Ambas são reais e nenhuma é separada da outra, mas cada uma ganha a sua “veracidade” no seu agenciamento com a outra. Todos esses dias, em São Paulo, e em muitas outras capitais,  jogamos  games coletivos – todos fomos conectados a circuitos de informações, espaços e curtos-circuitos que alteravam nossos movimentos segundo as imagens e as interações dos demais membros do jogo. Todos experimentamos a nossa plural e interativa condição habitativa. O sangue dos manifestantes, golpeados pelos policiais, não caía apenas no chão das ruas, mas se derramava em espacialidades informativas. A polícia, através da computação móvel e das conexões instantâneas, tornou-se mídia, cúmplice de um ato informativo, e os manifestantes experimentaram o prazer de transformarem seus corpos em informação. Transformar a polícia em mídia foi uma das grandes contribuições destes movimentos, que não possuem líderes nem direção única. Todas as tentativas oportunistas de direcionar e organizar os conjuntos de movimentos serão desmascaradas. Estamos falando da sociedade civil conectada e não deste ou daquele movimento social. Os atores destes movimentos, portanto, não são apenas os humanos, menos ainda alguns líderes. Não estamos falando de movimentos tradicionais que aconteciam nos espaços urbanos e industriais. Estamos, de fato, já em outro mundo.

Fora das redes, ainda há muita gente sem entender o que as manifestações significam, ou como elas surgiram. No ambiente virtual, há maior entendimento sobre o tema?
As manifestações do Brasil são expressões de uma transformação qualitativa que desde o advento da internet altera a forma de participação e o significado da ação social. O nosso Centro de Pesquisa Atopos, da Universidade de São Paulo, está finalizando uma pesquisa internacional, com o apoio da Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo], sobre o tema.

A pesquisa analisou as principias formas de net- ativismo em quatro países (Brasil, França, Itália e Portugal). Os resultados são interessantes e mostram claramente alguns elementos comuns que, mesmo em contextos diferentes, se reproduzem e aparecem como caraterísticas parecidas. Isso sublinha, mais uma vez, a importância das redes de conectividade e as caraterísticas tecno-informativas dessas expressões de conflitualidade que surgem na origem, na organização e nas formas de atuação destes movimentos. Em síntese, as principais caraterísticas comuns a todos eles são as seguintes: 1. O net-ativismo se coloca fora da tradição política moderna, pois expressa um novo tipo de conflitualidade que não tem como objetivo a disputa pelo poder. Todos os movimentos que marcam as diversas formas de conflitualidade contemporânea (os Zapatistas, os Indignados, Occupy Wall Street, Anonymous, M.15, etc.) não têm como objetivo tornarem-se partidos políticos e concorrerem nas eleições. São todos explicitamente apartidários e contra a classe política. Reúnem-se todos, contra a corrupção, os abusos e a incapacidade dessas mesmas classes políticas e de seus representantes; 2. São movimentos e ações que não estão organizados de forma tradicional, isto é, não são homogêneos, compostos por pessoas que se reconhecem na mesma ideologia ou em torno do mesmo projeto político. Ao contrário: são formas de protestos compostas por diversos atores e nos quais, exatamente, como numa arquitetura reticular, as contraposições não são dialéticas e não inviabilizam a ação; 3. Possuem uma forma organizativa informal e, sobretudo, sem líderes e sem hierarquias; 4. O anonimato é um valor, não somente porque permite a defesa perante ações repressivas, mas porque é a forma através da qual é defendida a não-identidade, coletiva ou individual, de seus membros e das ações. Na tradição das ações net-ativistas, a ausência de identidade e a não visibilidade é o meio através do qual a conflitualidade não se institucionaliza, tornando-se, assim, irreconhecível, não identificável e capaz de conservar a sua própria eficácia conflitiva; 5. São movimentos ou ações temporárias e, portanto, não duradouras, cujas finalidades e ambições máximas são o próprio desaparecimento.

Estes e outros elementos que encontramos em todas as ações net-ativistas são parte já de uma tradição que possui textos e reflexões que vão desde a tradição cyberpunk até as contribuições de Hakim Bey, a guerrilha midiática de Luther Blisset, até a conflitualidade informativa zapatista. Os Anonymous e os Indignados e as diversas formas de conflitualidade digital contemporâneas são, na sua especificidade, a continuação disso. Não há uniformidade, nem pertença de nenhum tipo, mas inspiração.

A questão informativa é a grande façanha da tecnologia? É mais fácil mobilizar pessoas hoje do que no século passado?
Na teoria da opinião pública estamos assistindo a uma grande passagem do líder de opinião para o empreendedor cognitivo. O líder de opinião ganhava seu poder de persuasão através do seu poder midiático que lhe permitia, de forma privilegiada, através da TV ou das páginas de um jornal, alcançar uma grande parte da população de um país. Esta figura, geralmente um comentarista, um cientista político, um profissional da comunicação, um próprio político ou uma personalidade pública, é hoje substituído no interior das novas dinâmicas dos fluxos informativos por outro tipo de informante e de mediador. Este é aquele que, por ter vivenciado ou por ter sido o próprio protagonista de um acontecimento, distribui, através das mídias digitais, diretamente, sem mediações, o acontecimento. É o caso dos manifestantes que postaram tudo o que aconteceu nas ruas durante as manifestações. Nenhum comentarista, ou líder de opinião conseguiu competir com eles e disputar com eles outra versão dos acontecimentos. Eles, os manifestantes, fizeram a cobertura do evento com seus celulares, suas câmeras baratas, a partir do próprio lugar dos acontecimentos, ao vivo. A maioria das informações que circulavam foi produzida por eles. Esse é um fato tecnológico que foi possível porque existe uma tecnologia que permite isto ser possível. Isto é, também um fato político que quebra em pedaços décadas de estudos sociológicos sobre a relação entre mídia e política, entre mídia e poder. A grande transformação que as redes digitais produzem é a interatividade. As pessoas conectadas buscam suas informações, as ordenam, obtêm mais fontes e elementos para avaliar as mesmas. Digamos que, tendencialmente, a população é mais consciente, pois tem acesso direto a uma quantidade infinita de informações sobre qualquer tipo de assunto, tornando-se eles mesmos os editores e os criadores de conteúdos. Da mesma maneira, pelos mesmos dinamismos informativos, eles se tornam políticos, administradores e transformadores de suas cidades ou de suas localidades.

O senhor é europeu, mas vive há muitos anos na América Latina. O processo de expressão massiva se difere de qual maneira entre os dois continentes?
Absolutamente não se distingue. Os movimentos possuem todos eles as mesmas características. Em cada país, temos situações específicas e atores diferentes, mas que atuam de maneira análoga: através das redes digitais. Possuem a mesma específica forma de organização coletiva: não institucionalizada e sem hierarquia. Expressam as mesmas reivindicações: contra a corrupção dos partidos políticos, para maior transparência e eficiência, melhor qualidade dos serviços públicos. Desconfiam todos de seus representantes e querem decidir diretamente sobre os assuntos que os interessam.

Quais são as consequências da posição em que as manifestações tomam atualmente?
A rede é o “Além do Homem” do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Não é fácil, no seu interior, construir éticas coletivas, nem majoritárias, pois o seu dinamismo é emergente e sua forma temporária. A participação em rede não irá produzir novas ideologias unitárias, menos ainda revoluções, pois a sua razão não é abstrata e universal, mas particular e conectiva, mutante e incoerente. Apenas poderá destruir o velho jogo vampiresco da governança representativa e partidária, pois esta não é mais representativa e gera um sistema baseado na corrupção, no qual essa corrupção não é exceção, mas regra e norma do jogo.

As ideologias políticas que prometiam igualdade e a salvação do mundo fracassaram, não apenas em seu intento socioeconômico igualitário, mas naquele mais importante: de produzir um novo imaginário social e cultural que nos tornasse parte de uma sociedade melhor e mais justa, na qual pudéssemos nos tornar melhores do que somos. A não-ética coletiva das redes não será uma decálogo de normas e uma visão de mundo organizada e proferida pelas bocas das vanguardas, ou dos líderes iluminados, sempre prontos a surfar uma nova onda, mas será muito mais humildemente particular. Não mudará o mundo, mas resolverá através da conectividade problemas concretos e específicos, que tem a ver com a qualidade do ar, o direito à informação, o preço do transporte público, a qualidade do atendimento nos hospitais, a qualidade da educação, isto é: tudo aquilo que partido nenhum jamais conseguiu fazer.

A esquerda acusa que está em marcha o acirramento de um fascismo nas manifestações, cujo sintoma é a rejeição (com tomada e queixa de faixas e bandeiras) de partidos das passeatas. Uma ala da direita, por sua vez, também contesta as manifestações como sendo uma “armação” da esquerda, inclusive com o apoio da imprensa.
É visível para todos o oportunismo e o desespero de uma cultura política da modernidade que se descobriu de repente obsoleta e fora da história. Nenhum partido de esquerda consegue hoje representar os anseios e as utopias sequer de uma parte significativa da população. Eles se encontram na singular e cômica situação do menino escoteiro que, para cumprir sua boa ação, tenta convencer a velhinha a atravessar a rua para podê-la ajudar. Só que a velhinha não quer cruzar a rua, mas deseja ir em outra direção. A lógica dialética, eurocêntrica e cristã, baseada na contraposição entre o bem e o mal marca toda a cultura política da esquerda que hoje se configura como uma religião laica, não mais racional nem propositiva, mas histérica. O aparecimento dos movimentos e das manifestações expressou com clareza o desaparecimento do seu papel de vanguarda e a sua incapacidade histórica de análise e de abertura à diversidade e ao livre debate. Como na lógica da salvação religiosa, o bom e o justo existem e justificam a sua função somente enquanto existe o mal. A caça às bruxas é uma exigência, a última tentativa de justificar sua função, e uma necessidade ainda de sua presença em defesa dos mais “fracos” e dos mais “necessitados”. Não excluo que em alguns casos isolados e não representativos tenhamos tido a presença de grupos de isolados e poucos indivíduos de direita. Mas a reação e a caça às bruxas que foi gerada é de natureza histérica e a-racional, a última tentativa de voltar no tempo e na história em um passado ameaçador no qual havia necessidade de uma ordem, de uma ideologia e de uma vanguarda que representasse o confortador papel da figura paterna.

 

Maffesoli

Sociólogo francês diz que protestos no Brasil vão continuar

O escritor Michel Maffesoli, um dos maiores especialistas do mundo em manifestações, falará sobre o tema na USP

Andrei Netto – O Estado de S.Paulo
26 de outubro de 2013

PARIS – Autor de livros como A Violência Fundadora (1978) e A Violência Totalitária (1979), o sociólogo francês Michel Maffesoli, um dos especialistas mais requisitados para falar dos protestos que se espalharam pelo mundo há três anos, vai analisar o assunto em São Paulo no dia 6 de novembro, em uma conferência na Universidade de São Paulo (USP).

Profissional da  Sorbonne e do Instituto Universitário da França (IUF), ele estudou em suas obras a fascinação que a violência exerce na sociedade, assim como os motivos que levam o Estado a também adotá-la. Uma de suas constatações é de que a violência pode ser simplesmente banal, sem razão, sem bandeiras, sem ideologias – como, segundo ele, acontece agora nos protestos no Brasil.

A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva ao Estado, em Paris.

O senhor vai ao Brasil falar de ativismo na internet. Por que isso o fascina?

O tema do net ativismo é algo que me é caro, sim. Eu posso falar sobre a Europa, não sobre o Brasil, mas de uma maneira geral a política, da forma como foi elaborada no século 19 e funcionou bem no século 20, já não é algo eficaz. Os partidos políticos, os programas de governo, os sindicatos não cristalizam mais a rebelião dos jovens, já não falam para as novas gerações. “Política” significa agir sobre a sociedade. Mas isso se perdeu.

É isso que os jovens perceberam na Espanha, na Grécia, na Turquia, no Brasil?

Sim. Com a ajuda da tecnologia, de uma forma um pouco difusa, vêm nascendo novas formas de mobilizar a energia para agir pela sociedade. É o caso dos indignados em Madri e dos protestos em Atenas. No Brasil, vimos que desde junho acontecem regularmente explosões de mobilização. E essas explosões em São Paulo ou no Rio de Janeiro aconteceram com a ajuda da internet, usando flash mobs, redes sociais, para convidar outros ao ativismo. Esse “net ativismo” é uma manifestação da pós-modernidade.

O que é a faísca dessas manifestações?

Quando não estamos contentes com a situação econômica, política, social, moral, há uma lenta insatisfação que se acumula até um ponto de saturação. Em determinado momento, acontece a faísca, um pretexto, que inflama essa profunda insatisfação. No Brasil foram os tais 20 centavos, algo absolutamente ridículo, mas que foi a gota d’água. Foi a tarifa do ônibus, mas poderia ter sido a greve dos professores ou a construção dos estádios de futebol. Algo detonou a revolta no Brasil, que vai continuar a se manifestar.

O senhor tem um livro que fala sobre a “violência banal e fundadora”. Não é o que está surgindo no Brasil com esses pequenos grupos violentos, como os Black Blocs?

Sim. Eu tenho um leitor no Rio de Janeiro que eu não conheço, mas que me escreve regularmente. Ele tem uns 20 anos, fala mal francês, mas lê meus livros, os de Deleuze e de outros filósofos franceses, e sempre me envia vídeos dessas explosões de violência. O último foi de um grupo de 30 ou 40 jovens, garotos e garotas, que ocupava o Palácio da Guanabara, ou ainda outras dezenas que faziam algo violento na Lapa. É o que eu chamo de violência banal e fundadora, quando há um lado violento, mas outro também festivo. No final da ação violenta, eles simplesmente foram embora, para depois ressurgir em outro ponto. É isso a violência banal. Ela não tem razão, não tem causa. É uma violência emocional. E a gestação disso, hoje, se dá na internet.

Como responder a esse movimento?

Não sei. Estamos na passagem da modernidade para a pós-modernidade. Todas essas explosões são a consequência dessa mudança de civilização. Não sei se o mundo político pode dar uma resposta, qualquer que seja ela. Seria necessário que ele mudasse completamente de paradigma. Há uma distância entre a política e os intelectuais, de um lado, em relação a essa insatisfação. Essa insatisfação é emocional, ela expressa o “saco cheio” das pessoas. O problema do “saco cheio” é que é difícil para um político gerenciar. Ele simplesmente está aí.

É normal que esses jovens não tenham causas precisas?

Às vezes têm causas, mas elas na verdade não passam de pretextos. Eles não estão brigando por mais democracia. É como uma crise de adolescente. A criança em determinado momento não se sente mais bem em seu corpo e em sua mente, porque está virando adolescente. E aí ele explode, fica intratável. É como esses grupos violentos, que não têm uma causa racional. Só não se sentem bem com o que estava aí, e exprimem isso de forma violenta, emocional. O que é curioso é que, pela internet, essa insatisfação brutal se difunde.

É por isso que os partidos não conseguem se apropriar desses movimentos?

Sim. Os partidos políticos continuam a funcionar com as velhas gerações e com aquelas que estão no poder, mas não com os jovens. Os partidos não interessam mais os jovens. Na Europa cada partido tem grupos de jovens, mas não é algo de massa, não tem mais engajamento de toda a sociedade. A forma “partido”, que foi criada pelos alemães no século 19, foi pensada para organizar a energia para mudar ou corrigir a sociedade. Mas essa forma é muito burocrática, muito vertical, piramidal, não funciona mais. Os partidos estão caindo em desuso, estão ficando esclerosados, e então nascem as novas formas de ativismo. A internet demonstra isso.

Sob olhar do net-ativismo

Sob olhar do net-ativismo, Di Felice avalia onda de protestos

 

No Brasil e nos quatros cantos do mundo, os cidadãos, através das tecnologias interativas, do acesso aos bancos de dados e da possibilidade de divulgação do próprio conteúdo, começaram a construir redes que, na maioria dos casos, superam a forma opinativa para desenvolver originais formas colaborativas de ativismo em busca de soluções por meio de uma participação coletiva.

Em junho, o país foi palco de uma série de manifestações, que empenhavam as mais diversas reivindicações, seguindo o desenrolar do que já havia acontecido em outros lugares do mundo, colocando em evidência as práticas de net-ativismo.

Coordenador do Centro de Pesquisa ATOPOS, o professor Massimo Di Felice, do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP), analisa essas questões há muito tempo. Para ele, apesar das relações com movimentos sociais tradicionais, o net-ativismo possui algumas características muito particulares do seu tempo.

Além disso, Di Felice acredita que as manifestações ocorridas no Brasil durante o mês de junho foi um verdadeiro modelo, um exemplo que será analisado por muitos anos e estará presente em diversos manuais de comunicação como um novo paradigma.

O net-ativismo será tema de um congresso internacional que acontece na ECA entre os dias 6 e 8 de novembro, e que irá receber diversos pesquisadores renomados internacionalmente, como Pierre Lévy, Michel Maffesoli, José Bragança de Miranda, Alberto Abruzzese, além de Massimo Di Felice.

 

Durante o encontro será lançado o resultado de uma pesquisa inédita sobre Net-Ativismo coordenada pelo ATOPOS, que aborda as experiências nesta área no Brasil, Portugal, Espanha e França, e também será inaugurado o Observatório Internacional sobre o Net-Ativismo.

 

Confira, na sequência, a entrevista completa com o professor Massimo Di Felice:

Os movimentos ativistas em rede possuem uma história ampla e bastante significativa, com impacto real em diversos episódios da história. Como o senhor avalia a evolução desses movimentos, e quais as principais características que estão presentes nessas iniciativas até hoje, apesar das diferenças da sociedade atual?

Di Felice: Há mais de dez anos me dedico ao estudo dos movimentos net-ativistas, sobretudo na Europa e na América Latina, chegando à conclusão de que o advento das redes digitais e das formas de net-ativismo, embora em alguns casos mantenham um diálogo com algumas reivindicações próprias de movimentos sociais tradicionais, acontecem em espacialidades, formas, práticas e objetivos diferentes. A conflitualidade social, assim como a politica em geral, as nossas formas de relacionarmos, a estrutura do social e tudo o que nos cerca foi qualitativamente transformado pelo processo de digitalização e pela conectividade. Ingressamos num novo âmbito social e num novo tipo de conflito, que não tem nada a ver com a disputa pelo poder e que se coloca externamente em oposição aos espaços da politica moderna (partidos, sindicatos, movimentos estudantis) e que tem na conexão, no acesso e no compartilhamento dos dados e, portanto, não na ideologia, seus elementos constituidores.
No Brasil, os movimentos ativistas em rede tiveram grande visibilidade durante as manifestações de junho. Para muitos, inclusive, esses movimentos eram, até então, desconhecidos. O Brasil demorou a dar voz e a perceber a importância desses movimentos? E por que só agora eles conseguiram atrair a atenção da população que não está diretamente envolvida com eles, e ganhar uma maior relevância?

Di Felice: Não acho que o Brasil demorou. Como nos outros países, o Brasil também experimentou o processo de digitalização das formas de conflitualidade. Basta pensar no fenômeno dos hackers, ou nos vários grupos ativos no âmbito do software livre. Certo é que a grande experiência na América Latina foi o zapatismo, nos anos 90, que inaugurou uma nova forma de conflitualidade e foi uma das primeiras formas pós-ideológicas de atuação.


No anos 90, o zapatismo inaugurou, na América Latina, uma nova forma de atuação, que está diretamente relacionada às praticas de net-ativismo vistas atualmente. A imagem, tirada em 1994, ilustra uma marcha de manifestantes zapatistas no México (foto: Le Monde Diplomatique)

O senhor acredita que aquilo que foi visto nas ruas do Brasil em junho realmente já existia na comunicação digital, em redes sociais, por exemplo? De fato, o espírito contestador que invadiu as ruas já estava presente e organizado na rede anteriormente, e que, em junho, ele ‘saiu do Facebook’ – como dizia um dos slogans das manifestações?

Di Felice: As formas de conflitualidade vistas em junho são expressões de um novo tipo de conflito, que nada tem a ver com os movimentos sociais históricos. O que os diferenciam destes são, em primeiro lugar, o local da ação. A primeira diferença é que estes nascem nas redes, surgem das conexões, isto é, das trocas informativas nos social network, saem às ruas, mas, mesmo assim, continuam online, uma vez que os acontecimentos das ruas são por eles mesmos, e por vários outros, filmados, fotografados, comentados online, criando uma singular ecologia que expande a ação a uma dimensão conectiva e tecno-informativa. Em segundo lugar,  se diferenciam nos objetivos. Tais movimentos desenvolvem suas reivindicações nas redes e, portanto, através de uma estratégia construída anteriormente, mas estabelecem metas e finalidades na medida em que se desenvolvem e se transformam pela conexão de mais membros, isto é produzem um tipo de ação comunicativa emergente. Em terceiro lugar ,  se diferenciam também na  forma. Não possuem líderes nem ideologia e, portanto, não podem ser enquadrado nos moldes da política moderna. Enfim em quarto lugar são diferentes também na esfera da identidade. As diferenças dos movimentos sociais que possuem uma clara conotação identitária, que marca sua origem e o define, estes não nascem enquanto expressão de uma ideologia, nem busca se definir no tempo. A lógica que prevalece é a do anonimato, a de expressão de uma crítica a qualquer tipo de identidade e de previsibilidade, este elemento que se manifesta como uma constante em diversos contextos e países.

 

‘Sair do Facebook’ é um passo além para algum tipo de mobilização social? Ou seja, os movimentos ativistas em rede têm mais impacto e maior poder de transformação quando saem da internet e vão para as ruas?

Di Felice: Me parece que a questão merece uma particular atenção. As formas de conflitualidade social net-ativista exprime uma forma de conflitualidade “atópica”, ou seja, resultado das interações entre indivíduos, dispositivos de conectividades, fluxos informativos e territorialidades. Isso significa que devemos pensar em uma nova teoria da ação que não envolva apenas os sujeitos humanos. Como relatado em outros contextos, os manifestantes que participaram de eventos e passeatas, em diversas latitudes e contextos, nos últimos anos, habitam espaços estendidos que alcançam, através do poder da conexão e das interações de seus dispositivos móveis. Não somente os movimentos e as ações têm, na quase totalidade dos casos, origem nas redes, mas ao sair nas ruas continuam conectados, decidem suas estratégias de ação através da interação contínua com as redes informativas e a troca de informações instantâneas nos social network. Tudo é filmado, gravado, fotografado e imediatamente colocado em rede para o mundo. Não somente eles se deslocam conectados, mas a manifestação acontece, de fato, somente se filmada, fotografada e postada na rede, tornando-se novamente digital, isto é, informação compartilhada e distribuída.  A  ecologia da ação conectada supera os limites das ruas e das cidades para ganhar uma indefinível localidade e se reproduzir além dos espaços urbanos e políticos. Os conflitos são principalmente  informativos, as passeatas promovem a interação entre informações, espaços urbanos e ações interativas. São jogos de trocas de informações entre corpos, dispositivos, circuitos territorialidades.  São expressões do surgimento de um novo tipo de carne informatizada, que experimenta a sua múltipla dimensão, a informação digital e a sangrenta materialidade  golpeada e machucada. Ambas são reais e nenhuma é separada da outra, mas cada uma ganha a sua veracidade social no seu agenciamento e através do diálogo informatizado com a outra. O sangue dos manifestantes golpeados não cai no chão e no asfalto das ruas, mas derrama-se em espacialidades informativas. A polícia e os aparatos repressores, neste contexto, torna-se mídia, cúmplice de um ato informativo, e os manifestantes experimentam o prazer dolorido de tornar seus corpos informação, elevando a conflitualidade nos bits dos circuitos informativos.


Para o professor, os protestos de junho são um novo paradigma, que representa a passagem de um regime comunicativo centralizado para outro, baseado na descentralização e na produção generalizada de pontos de vista (foto: Gustavo Basso)

Como o senhor avalia o impacto desses movimentos no Brasil para a grande mídia, para as grandes empresas que detêm o monopólio da comunicação? Os movimentos ativistas mostraram que, de fato, têm alcance e são uma alternativa real a essas empresas?

Di Felice: O que aconteceu em junho foi um verdadeiro modelo, um estudo de caso privilegiado, que os manuais de comunicação dos próximos anos relatarão como um momento paradigmático de passagem de um regime comunicativo centralizado (o dos grandes grupos de difusão e dos monopólios) para outro, baseado na descentralização e na produção generalizada de pontos de vista. Não que os monopólios deixaram ou deixarão de existir. Eles continuam existindo, mas nas arquiteturas informativas, com o advento das redes digitais, deixaram de existir os pontos de vistas centrais. A forma de comunicação em redes produz a tomada coletiva das palavras, isto é, um contexto informativo no qual o que conta não é mais o poder ou o carisma da fonte de emissão da informação, mas a avaliação que a informação tem na própria rede, através do poder do clique. São os números do clique que estabelecem o poder de difusão de uma informação.

 

De que forma o senhor acredita que I Congresso Internacional de Net-Ativismo, que acontecerá em novembro na ECA, pode contribuir com estudos futuros e com os entendimentos sobre as relações entre as redes digitais e as novas práticas de democracia?

Di Felice: Trata-se do primeiro Congresso Internacional de Net-Ativismo no Brasil. Teremos a presença de delegações de estudiosos da temática e de movimentos de países da África, da Europa e da América. No congresso, apresentaremos os resultados da nossa pesquisa, e isso é importante. Mas, sobretudo, teremos a possibilidade de confirmar alguns aspectos teoricamente importantes. O net-ativsimo é um fenômeno global. Ele expressa um novo tipo de ação social e um novo tipo de ecologia da ação humana, tecnológica e informativa. Enquanto expressão de forma comunicativa reticular, o net-ativismo está no mundo inteiro expressando a passagem da politica analógica para a cosmopolítica. O net-ativismo é a expressão do advento de uma nova cultura democrática, não mais baseada na representação ou na delegação, mas no acesso de todos a todas as informações e na conectividade. Tal forma é marcada pela experimentação, no mundo inteiro, de arquiteturas informativas que permitem a tomada colaborativa e coletiva de decisões, como já visto na Espanha, na Itália, na Irlanda e, em poucos meses, também na Argentina.

por Giuliano Tonasso Galli em 10/10/2013 

Fonte – http://www3.eca.usp.br/noticias/sob-olhar-do-net-ativismo-di-felice-avalia-onda-de-protestos